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Não brinque com o
inimigo
Quando eu, meu irmão, meus primos e toda garotada da rua
invadíamos o sagrado espaço da cozinha, defendido com
olhares de censura pela minha avó Joana, depois de duas
ou três brincadeiras mais ruidosas, ela nos dizia
pausadamente do alto de sua sabedoria cultivada pelos
anos de experiência: graça por graça uma vez só basta.
Acusávamos a reprimenda e batíamos em retirada. Aprendi
assim, depois de levar muitos desses puxões de orelhas,
que brincadeiras ruidosas podem irritar algumas pessoas
e que não é um comportamento bem-vindo em todos os
lugares. Mas, brincar pode? Pode e deve. A vida com
alegria é quase um sinônimo de felicidade. Pessoas
bem-humoradas, de espírito leve são muito bem recebidas
em praticamente todas as rodas de conversa. E aqui entra
um complicômetro do relacionamento humano. As piadas e
brincadeiras barulhentas, além de irritar as Joanas da
vida, quase sempre, prejudicam a imagem do engraçadinho.
O humor sutil, refinado transforma-se num atestado de
inteligência e de preparo intelectual. Enquanto o
trocadilho grosseiro e a piada rasteira demonstram
rusticidade social, a ironia fina e as tiradas
espirituosas espontâneas leves atestam originalidade e
formação requintada. Até aqui nada de novo nos dez
mandamentos da convivência humana. Só que, por ser
sutil, o mesmo humor que pode nos projetar, pode também,
às vezes, nos trazer aborrecimentos. Seria desnecessário
explicar que a sutileza do humor funciona quando o
interlocutor também é dotado de sensibilidade e massa
cinzenta. Tanto que para nos relacionarmos bem com
diferentes grupos precisamos medir esse nível de
sutileza, de acordo com a capacidade de compreensão das
pessoas com quem mantemos contato. Lembro-me de uma
explicação interessante dada pelo Chico Anísio. Ele
dizia que iniciava seus shows sempre com uma piada bem
leve, que poderia ser contada no chá das freiras, e
media a reação do público; depois ia colocando mais
tempero nas seguintes, até que a risada da platéia
ficava meio forçada. Essa era a medida. Daí para cima
era como se falasse no bar do cais do porto.
Sem contar que o humor sutil, além de não ser entendido
por todos, pode se transformar numa poderosa arma nas
mãos dos nossos inimigos e adversários. Esses José
Silvério dos Reis de plantão ficam aguardando a
oportunidade para dar o bote e nos atacar. Pegam ao pé
da letra as palavras que deveriam ser entendidas apenas
no sentido figurado, fingem que não entenderam a
intenção sutil da brincadeira e se mostram, normalmente
diante de outras pessoas, indignados. E ficamos
desesperados dando explicações de que tudo não passou de
uma ingênua brincadeira. A pessoa que nos atacou finge
querer ajudar e faz aquele ar de quem está perdoando
nosso deslize. Só que as outras pessoas que participam
da conversa também podem ficar contaminadas e acreditar
que fomos mesmo grosseiros. Por isso, quando suspeitar
da presença de algum inimigo na conversa, não vacile.
Faça brincadeiras com sutileza, use o humor sutil, que é
a medida do seu preparo e a marca da sua inteligência,
mas exagere na maneira de comunicar. Fale fazendo
caretas, imitando vozes estranhas, use pausas mais
prolongas, para que não fique nenhuma dúvida de que a
intenção é muito distinta do que a mensagem direta
comunica. Na dúvida, não arrisque e fique na sua.
Redobre o cuidado quando for escrever. No papel, ou na
tela do computador você não poderá contar com a ajuda da
expressão corporal ou da voz para informar que está
brincando. Portanto, aqui valem as aspas, as reticências
e até os avisos explícitos de "brincadeirinha".
Não deixe de brincar ou de usar seu humor sutil, mas
precavenha-se dos cabeças de ostra e das pessoas bem
preparadas que não possuem escrúpulos para dar uma boa
puxada no seu tapete. |